Opinião

Portugal Atlântico

As celebrações do Dia de Portugal decorreram este ano nos Açores. António José Seguro fez bem ao escolher a Terceira para as primeiras comemorações do seu mandato. Celebrar Portugal no meio do Atlântico, numa altura de fortes tensões transatlânticas, é lembrar o que estas ilhas acrescentam à responsabilidade e ao potencial que o país tem no mundo hoje. É assinalar o valor e o percurso da autonomia regional, cujo cinquentenário celebramos este ano, e a responsabilidade que representa para o conjunto do país, que não pode continuar a ser visto apenas a partir de Lisboa. Quando tanto se fala de soberania, segurança e mar, os Açores não são periferia. São uma das formas mais claras e mais consequentes de Portugal estar e se afirmar no mundo.

O mar como desígnio

Foi também nos Açores, no Dia Mundial dos Oceanos, que o Secretário-Geral do PS, José Luís Carneiro, iniciou a Rota pela Economia do Mar. Portugal tem uma das maiores zonas marítimas da Europa e não pode continuar a tratar o mar como paisagem. O mar é pesca, portos, investigação, energia, turismo, segurança, emprego e coesão territorial. É, acima de tudo, um projeto de futuro que ainda não tomámos a sério como merecemos. A escolha do líder socialista representa, pois, uma prioridade estratégica condizente com as exigências de um novo tempo.

Onde o Atlântico acontece

Na abertura do Evento Anual das Guardas Costeiras Europeias, promovido em Ponta Delgada pelas três Agências Europeias com atividade no mar, defendi que os Açores devem ser a sede permanente das operações marítimas atlânticas da União Europeia.

Os argumentos são sólidos: temos uma das maiores zonas económicas exclusivas da União; estamos no centro das rotas atlânticas, dos cabos submarinos, da vigilância das pescas e da segurança marítima; temos meios e projetos que podem servir de base a esse desígnio. Se a Europa leva a sério o Atlântico, deve colocar meios onde o Atlântico acontece.

Quem decide deve responder

A proposta do Conselho para o próximo orçamento europeu é preocupante. Cortar 32,8 mil milhões de euros face à proposta da Comissão é enviar o sinal errado no momento errado. Não se pode responder a mais desafios com menos ambição.

O Parlamento Europeu tem defendido outro caminho: mais meios, mais coesão, mais atenção às pescas, à agricultura e às regiões com custos permanentes. É esse o caminho certo. Mas convém ser claro: quem decide os cortes não pode depois fingir preocupar-se com os seus impactos. As palavras têm de ter consequências.

O que importa é o resultado, não a propaganda

O POSEI - Programa de Opções Específicas para o Afastamento e a Insularidade - foi criado em 1989 para compensar as desvantagens estruturais das regiões ultraperiféricas da União Europeia. Ao longo de décadas, foi o instrumento central de apoio à agricultura açoriana e madeirense: do leite ao gado, das culturas regionais às cadeias de valor locais. Com o tempo, o seu âmbito foi sendo afinado, os seus regulamentos revistos, as suas dotações renegociadas. É um instrumento com história e resultados.

Mas a questão que verdadeiramente importa não é o nome do instrumento. É saber se os agricultores dos Açores e da Madeira têm apoio suficiente, estável e adequado às suas necessidades. Se os transportes são subsidiados. Se as pescas estão protegidas. Se as comunidades das regiões ultraperiféricas sentem que a União Europeia reconhece as suas especificidades.

Esses objetivos podem ser prosseguidos pelo POSEI, ou por outros instrumentos, consoante o que o quadro regulatório permitir e o que melhor servir as pessoas. O que recusamos é transformar siglas em bandeiras e negociações em teatro inconsequente. O ilusionismo político pode preencher manchetes, mas não muda a vida de quem trabalha a terra ou navega o Atlântico. E hoje, mais do que nunca, o que se espera são soluções concretas e não propaganda sem resultados.

Deputado do PS/Açores no Parlamento Europeu